A Infância da Impunidade

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Há imagens que nos perturbam pela sua crueza. Entre elas, ver crianças de colonos a agredir adultos palestinianos é particularmente chocante. Estes atos, por vezes interpretados como simples manifestações de ódio infantil, são, na verdade, o reflexo de algo muito mais profundo: uma aprendizagem precoce e sistemática de que a impunidade se aplica também a elas.

Desde cedo, estas crianças observam os adultos — pais, vizinhos, líderes religiosos ou soldados — a hostilizar palestinianos sem que haja consequências. Quando percebem que a violência não é punida, interiorizam que é aceitável, legítima e até esperada. É assim que a impunidade se transmite de geração em geração, tornando-se uma herança social. A educação formal e o ambiente familiar reforçam esta perceção: os palestinianos são, por vezes, apresentados como intrusos ou ameaças, enquanto a normalização da ocupação e da violência permeia as conversas quotidianas. Esta construção cultural e política molda mentalidades desde a mais tenra infância.


A Proteção Institucional e o

 Ensinamento Perigoso

Este ciclo é completado pela proteção institucional. O exército israelita, em vez de impedir os ataques de colonos, muitas vezes protege-os. Esta disparidade legal e prática envia uma mensagem inequívoca: a lei não se aplica da mesma forma a todos. Para uma criança, esta lição é poderosa — e perigosa.

No plano jurídico, o quadro é claro. Os colonatos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental não têm validade legal e são um obstáculo à paz. Contudo, mais de 700 mil colonos vivem atualmente em territórios ocupados, amparados por um sistema que legitima a desigualdade.


O Ciclo Intergeracional de Violência

O resultado é um ciclo vicioso e intergeracional. Para as crianças de colonos, a agressão torna-se parte da sua identidade e do sentimento de pertença comunitária. Para as crianças palestinianas, isto traduz-se num trauma diário, ao verem que até os seus pares lhes podem infligir violência sem que ninguém responda por isso.

Quando uma criança cresce a acreditar que pode agredir alguém sem consequências, não é apenas a sua infância que é corrompida. É também o futuro que fica comprometido. A impunidade deixa de ser uma falha na justiça: passa a ser um mecanismo ativo de transmissão cultural que garante a continuidade de um conflito marcado pela desigualdade e pela violência.AOT

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