A Justiça Tardia: Entre a Desilusão e a Memória

Com o passar dos anos, uma realidade amarga torna-se cada vez mais evidente: a justiça internacional nunca chega a tempo. Quando finalmente se manifesta, os culpados já morreram, as vítimas foram silenciadas e os povos habituaram-se à ausência de respostas. E, no entanto, ela chega.
A História está repleta de exemplos:
- Nuremberga: Os nazis foram julgados apenas após a derrota e depois do horror ter sido revelado.
- Argentina: Durante anos, os generais gozaram de impunidade até serem, finalmente, confrontados com os desaparecidos.
- Ruanda: Só depois do banho de sangue é que alguém decidiu ouvir os sobreviventes.
- Jugoslávia: Os carrascos de Srebrenica envelheceram antes de ouvirem a sua sentença.
A justiça tem esta estranha característica: não se apressa. Caminha devagar, carregada de burocracia, esperas intermináveis e manobras políticas. Quando finalmente fala, a sua voz é distante, quase póstuma.
Gaza: O Presente que Já é Memória
Hoje, a ONU reconhece que em Gaza se viveu — e vive ainda — um genocídio. Mas, na prática, nada muda. As bombas continuam a cair, os aliados protegem Israel e os Estados Unidos fecham os olhos em nome da “estratégia”.
Pergunto-me: que valor tem um reconhecimento que não trava a matança?
Talvez nenhum valor imediato. Mas a história já me ensinou que esse reconhecimento é a primeira pedra no muro da memória. Um dia, alguém há de usá-la como prova num tribunal.
A Espera e o Peso da Idade
Neste caso, porém, o tempo joga contra mim. Com mais passado do que futuro, não sei se estarei cá para ver o dia em que um julgamento justo sobre Gaza acontecerá. Talvez, como tantos outros antes de mim, só ouça o eco vazio de promessas.
Esta é, talvez, a maior desilusão: perceber que a justiça, quando finalmente chega, pode já não nos pertencer. Pode chegar tarde demais para quem esperou uma vida inteira.
A Memória como Resistência
Ainda assim, recuso-me a ceder ao pessimismo. A justiça pode falhar, mas a memória não. Cabe-nos a nós — mesmo desiludidos, mesmo cansados — guardar e dar voz à lembrança. É essa memória que, mais tarde ou mais cedo, leva os poderosos para o banco dos réus.
E se não for no meu tempo, que seja no de outros. Porque a maior derrota não é a demora da justiça, mas sim o esquecimento.
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