A propaganda digital e o silêncio da fome


Entre a publicidade e a verdade, há uma linha cada vez mais ténue. O que significa quando uma empresa como a Google aceita promover mensagens que negam uma crise humanitária?
A propaganda digital e
o silêncio da fome
Nos últimos dias surgiu a notícia de que a Google terá firmado um contrato de 45 milhões de dólares com o governo israelita para veicular anúncios de propaganda. À primeira vista, pode parecer apenas mais uma operação de marketing político. Mas, quando olhamos para o contexto, a questão é muito mais séria.
Estamos a falar de uma campanha lançada num momento em que a ONU e várias organizações humanitárias denunciam uma crise alimentar extrema em Gaza, com mortes documentadas por fome e desnutrição. Ao mesmo tempo, anúncios pagos nas maiores plataformas digitais tentam convencer-nos de que essa realidade não existe.
O que está em causa não é apenas a relação entre um Estado e uma empresa tecnológica. É a forma como a verdade pode ser moldada quando quem tem poder financeiro compra espaço para difundir a sua narrativa. E aqui entra a responsabilidade das plataformas: até que ponto devem aceitar ser veículos de propaganda governamental em situações de guerra e crise humanitária?
Não é a primeira vez que vemos governos recorrer às redes sociais para influenciar a opinião pública. A diferença está na escala e no impacto. O YouTube e a rede de anúncios da Google chegam a milhões de pessoas em todo o mundo, muitas vezes sem que estas tenham consciência de que o conteúdo é patrocinado. O resultado é um espaço público em que factos e propaganda se misturam, tornando cada vez mais difícil distinguir informação de manipulação.
É natural que empresas vivam da publicidade. Mas há contextos em que aceitar determinados conteúdos deixa de ser apenas uma questão comercial e passa a ser um problema ético. A fome não desaparece porque um vídeo pago a nega. E quando uma plataforma com a dimensão da Google ajuda a amplificar essa negação, coloca-se do lado errado da história.
Por isso, a reflexão que este episódio nos deixa é simples: precisamos de exigir mais transparência e responsabilidade às empresas que controlam o fluxo global de informação. E precisamos, como cidadãos, de cultivar o espírito crítico, conscientes de que nem sempre o que nos aparece no ecrã corresponde à realidade.
De acordo com um relatório do site Drop Site News, o governo israelita, por meio de seu Escritório do Primeiro-Ministro, firmou em junho de 2025 um contrato de seis meses no valor de US$ 45 milhões com a Google e o YouTube. O objetivo seria promover uma campanha publicitária global, classificada como hasbara — termo em hebraico geralmente traduzido como “propaganda”— para apoiar narrativas favoráveis ao governo e minimizar a gravidade da crise humanitária em Gaza Drop Site NewsAnadolu AjansıMiddle East Monitor.
Essa campanha teria sido lançada logo após Israel decretar o bloqueio de alimentos, medicamentos, combustíveis e outros suprimentos humanitários à Faixa de Gaza em março Drop Site NewsAnadolu AjansıMiddle East Monitor. Dentre os conteúdos promovidos, destaca-se um vídeo do Ministério das Relações Exteriores de Israel no YouTube afirmando: “há comida em Gaza. Qualquer outra afirmação é mentira.” Esse vídeo teve mais de 6 milhões de visualizações graças ao impulso pago Drop Site NewsAnadolu AjansıMiddle East Monitor.
A campanha utilizou tanto o YouTube quanto a plataforma Google Display & Video 360, e também incluiu anúncios em outras redes como X (antigo Twitter), com gastos adicionais de US$ 3 milhões e em plataformas como Outbrain/Teads com cerca de US$ 2,1 milhões Drop Site NewsTRT WorldMiddle East Monitor.
O esforço também buscou desacreditar instituições como a UNRWA (agência da ONU para refugiados palestinos), acusando-a de “sabotagem deliberada”, além de atacar organizações legais pró-Palestina, como a Hind Rajab Foundation, associando-as a “ideologias extremistas” sem evidências claras Drop Site NewsMiddle East Monitor.
Enquanto isso, agências da ONU e autoridades de saúde em Gaza têm documentado uma situação crítica. Em agosto, a IPC (Integrated Food Security Phase Classification) declarou formalmente o início de uma fome em Gaza, e o Ministério da Saúde citou centenas de mortes por fome e desnutrição, incluindo muitas crianças Drop Site NewsMiddle East Monitor.
O que isso significa?
- É verdadeiro? Sim, várias fontes confiáveis, incluindo Drop Site News, Anadolu Agency, TRT World e Middle East Monitor, corroboram a existência desse contrato e da campanha de propaganda Drop Site NewsAnadolu AjansıTRT WorldMiddle East Monitor.
- Por que isso chama atenção? Porque revela como uma gigante tecnológica como a Google pode ser utilizada para promover mensagens coordenadas de governos — mesmo em contextos humanitários graves como o de Gaza — levantando questões éticas e políticas ao redor do mundo.
Como as pessoas estão reagindo?
Organizações de direitos civis, como o CAIR (Council on American-Islamic Relations), já pediram que a Google anule essa campanha de US$ 45 milhões Cair. Já o público e ativistas em redes sociais têm criticado fortemente o que veem como conivência com narrativas que ignoram a realidade humanitária.
Resumo final: Segundo relatórios jornalísticos recentes, o governo israelita contratou um massivo plano de publicidade via Google/YouTube para promover narrativas favoráveis e negar a gravidade da crise em Gaza — tudo isso reportado enquanto ONGs e instituições internacionais denunciam uma fome real na região.
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