Genocídio em Gaza: a palavra que obriga à ação

A conclusão de uma comissão independente das Nações Unidas de que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza é um momento de rutura. Não se trata apenas de uma denúncia moral, mas de um juízo jurídico que ativa deveres concretos para todos os Estados que ratificaram a Convenção do Genocídio de 1948.

Esse tratado não permite neutralidade: obriga a prevenir e a punir. Ignorar a decisão da ONU é, portanto, correr o risco de cumplicidade.


A inércia provável

O cenário mais plausível é que pouco mude. Os Estados Unidos, principais aliados de Israel, continuarão a fornecer armas e apoio diplomático, protegendo Telavive através do veto no Conselho de Segurança. Dentro do próprio país, a pressão social aumenta, mas dificilmente alterará a linha da Casa Branca.

Na Europa, multiplicar-se-ão declarações de condenação e gestos simbólicos, mas sem uma rutura decisiva. Portugal, como Estado membro da UE e da NATO, seguirá essa ambiguidade, oscilando entre a indignação moral e a obediência aos equilíbrios geopolíticos.

Entretanto, o processo em curso no Tribunal Internacional de Justiça arrastará os pés, e mesmo uma eventual condenação de Israel corre o risco de ser aplicada de forma parcial. Neste cenário, a palavra “genocídio” perde força, reduzida a mero recurso retórico.


A rutura necessária

Mas existe uma alternativa. Tal como após os massacres da Bósnia e de Ruanda nos anos 90, a comunidade internacional pode optar por dar peso real ao direito internacional.

Isso significaria: o Tribunal Internacional de Justiça condenar Israel por genocídio; o Tribunal Penal Internacional emitir mandados de captura contra dirigentes israelitas; a Assembleia Geral da ONU, usando a resolução “Uniting for Peace”, recomendar sanções globais.

Para Portugal, a consequência seria clara: cortar qualquer cooperação militar ou tecnológica que pudesse ser usada no conflito. Para os Estados Unidos, a escolha seria ainda mais dura: reduzir o apoio militar ou arriscar acusações de cumplicidade, tanto externas como internas, uma vez que a legislação americana proíbe ajuda a regimes genocidas.


Direito ou política?

Tudo se resume a isto: os Estados membros da ONU aceitarão que a palavra “genocídio” seja apenas mais uma acusação política, ou darão à palavra o peso vinculativo que a lei internacional exige?

Se prevalecer a inércia, Gaza não será apenas a tragédia da Palestina, mas também o epitáfio do sistema jurídico internacional construído depois da Segunda Guerra Mundial.

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