Manipulação, Machismo e a Credibilidade de Greta Thunberg

Nos últimos dias, circulou nas redes sociais uma imagem manipulada de Greta Thunberg, onde a sua blusa foi alterada digitalmente para incluir uma abertura provocatória no peito. A manipulação é evidente quando comparada com fotografias reais da mesma ocasião, mas isso não impediu a difusão da montagem e, sobretudo, não travou a enxurrada de comentários que se lhe seguiu.
O mais preocupante não é apenas a falsificação da imagem, mas a forma como muitos utilizadores reagiram: com insultos, insinuações e comentários machistas, como se a escolha de roupa de uma mulher fosse suficiente para invalidar a sua credibilidade pública. A pergunta que se impõe é simples: mesmo que Greta tivesse usado uma blusa assim, em que medida isso diminuiria o valor das suas ideias e da sua luta?
O episódio revela duas realidades interligadas. Por um lado, o uso cada vez mais frequente da manipulação digital como arma política, destinada a desviar o foco das causas para as aparências. Por outro, a persistência de uma cultura machista que continua a medir a seriedade de uma mulher pela forma como veste o corpo, em vez de pelo conteúdo da sua ação ou da sua palavra.
No caso de Greta Thunberg, a intenção é clara: ridicularizar a ativista, sexualizando a sua imagem para esvaziar o peso da sua mensagem. Mas este ataque não se dirige apenas a ela — é um reflexo de como a sociedade reage sempre que uma mulher ocupa espaço público e desafia estruturas de poder.
A questão não é, portanto, se Greta usaria ou não determinada peça de roupa. A questão é porque razão ainda aceitamos que a roupa de uma mulher seja usada como arma para descredibilizar o que ela tem para dizer.
Enquanto continuarmos a permitir que a aparência seja transformada em argumento político contra as mulheres, estaremos a reforçar um machismo estrutural que limita a liberdade, a voz e a legitimidade de todas elas.
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