
O que vemos hoje em dia não é a vitória da ignorância, mas o triunfo de uma nova religião: a fé na desinformação. Já não se trata de acreditar ou não na ciência, mas de seguir a nossa “equipa”, de vestir a camisola do nosso “clube” de crenças, independentemente de os factos estarem connosco ou contra nós.
Deixámos de ser consumidores de informação para nos tornarmos fiéis. E como em qualquer fé, o que importa não é a verdade, mas o sentimento de pertença e a validação do nosso grupo. A pessoa que partilha a imagem manipulada já não está a mentir; está a testemunhar a sua fé. Ela não precisa de verificar, porque a notícia confirma a sua visão do mundo, o que o grupo defende. A desinformação torna-se, assim, um ritual, uma forma de fortalecer os laços com os seus pares, de provar que estão no lado certo da barricada.
E aqui reside o paradoxo da inteligência. Um QI elevado não nos protege contra esta nova fé. Pelo contrário, pode até tornar-nos mais vulneráveis. A mente mais aguçada pode encontrar formas mais sofisticadas de justificar a crença em algo que o seu coração já aceitou. Em vez de questionar a informação, usa a sua inteligência para construir um castelo de areia de argumentos que a defendam. O facto de uma notícia ser falsa não a torna inútil; pelo contrário, torna-a uma ferramenta ainda mais poderosa para provocar emoções, para unir os “nossos” e para denegrir os “outros”.
Nesta era de guerras culturais, a desinformação é a nossa arma mais eficaz. Não lutamos por factos, mas por narrativas que nos façam sentir bem connosco mesmos. E se a verdade não se encaixa na nossa história, a solução é simples: inventamos uma nova.
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