O relatório esquecido no bar do hotel

A International Association of Genocide Scholars (IAGS), num brilhante rasgo de perspicácia e pontualidade, decidiu agora em setembro de 2025 – onze meses depois da tragédia se ter instalado – concluir que Israel está, de facto, a cometer genocídio em Gaza. A formulação, solene e academicamente impecável, aterrou como uma revelação do Monte Sinai, mas para um mundo que, ao longo do último ano, esteve minimamente atento à realidade, o anúncio peca sobretudo por… previsível.

A IAGS é a maior e principal organização de académicos dedicados ao estudo de genocídios e crimes contra a humanidade. Fundada em 1994, com mais de 500 membros, é tida como a voz mais autoritária no seu campo. A sua credibilidade reside na avaliação académica, refletida em resoluções que requerem a aprovação de uma maioria qualificada dos membros votantes. É precisamente esta sua importância que torna o seu timing tão grotesco.

Enquanto a realidade corria mais depressa que o som, enquanto bairros inteiros se desmoronavam em pó, hospitais se transformavam em escombros e a fome e a sede dizimavam crianças, os sábios da academia reuniam-se em assembleias virtuais. O tempo, esse sim, pareceu esticar-se ao infinito. Discutiam-se resoluções, contavam-se votos, afinavam-se vírgulas. A burocracia, qual moinho de vento, movia-se num ritmo próprio, completamente alheio ao massacre em tempo real.

Assim, resta-nos a sensação amarga de que a academia chegou, como de costume, tarde à estação. O relatório, com o seu peso simbólico, será certamente uma peça de museu para conferências e artigos especializados, mas não mudará o destino de quem ficou soterrado sob os escombros. É como se, no bar de um hotel, alguém tivesse esquecido um documento de extrema importância – e só meses depois, a meio de um sono profundo, se lembrasse de o ir buscar.

A ironia final, e a mais dolorosa, é que o genocídio não ficou à espera da ata final da assembleia. Ele já cumpriu o seu propósito.

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