Quando o Busca-Pólos Apaga a Chave de Fendas

Durante anos trabalhei na classificação aduaneira de mercadorias. A tarefa parecia, à primeira vista, apenas técnica: ler descrições, consultar pautas, aplicar regras. Mas esse exercício constante ensinou-me uma lição que hoje aplico muito para além das alfândegas: distinguir o essencial do acessório.

Tomemos um exemplo simples. Uma chave de fendas pode vir equipada com um busca-pólos. A ferramenta tem duas funções, mas a experiência mostra-nos que a sua essência é apertar e desapertar parafusos. O busca-pólos, embora útil, é secundário. A classificação aduaneira manda respeitar essa hierarquia.

Quando olho para as notícias, percebo que muitas vezes acontece o inverso. Em vez de se dar relevo ao que constitui a verdadeira “chave de fendas” de uma história, o destaque vai para o “busca-pólos”: um detalhe curioso, uma frase provocadora, uma estatística escolhida a dedo. O acessório é promovido a manchete, enquanto o essencial fica relegado para as entrelinhas ou desaparece por completo.

É aí que sinto a manipulação. Quando sei que o objeto principal é uma chave de fendas, mas me tentam vender apenas o busca-pólos, percebo que o jogo não é inocente. Trata-se de orientar a atenção pública para onde convém, mesmo que isso implique distorcer a perceção da realidade.

Esta forma de olhar não nasceu de uma predisposição crítica, mas de anos de prática profissional. A disciplina de classificar mercadorias obrigava-me a ser rigoroso, a pesar o valor relativo das partes, a procurar a função essencial. Hoje, ao aplicar esse raciocínio às notícias, descubro que a mesma lógica continua válida: não basta ver o que brilha; é preciso perceber o que realmente sustenta o objeto.

No fundo, ler informação deveria seguir a mesma regra que tantas vezes apliquei em alfândega: classificar pelo essencial, nunca pelo acessório. Porque é nesse detalhe que se decide se estamos perante uma leitura crítica ou perante uma manipulação bem disfarçada.


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