Reconhecimento a meias

O anúncio do reconhecimento da Palestina por parte do governo português parecia ser um passo histórico, um gesto de coragem política. Mas ao ouvir atentamente as palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros, fica a sensação de que o gesto ficou a meio caminho.
Nunca foi pronunciada a palavra genocídio. A destruição massiva em Gaza, que já levou à morte de dezenas de milhares de civis, foi descrita de forma vaga, como se evitar a palavra certa pudesse apagar a realidade. Essa omissão não é inocente: usar o termo teria consequências diplomáticas, obrigaria a uma posição clara frente a Israel.
Ao mesmo tempo, o ministro fez questão de referir várias vezes os reféns israelitas ainda em cativeiro. Claro que a sua libertação é uma exigência justa. Mas porque não lembrar também os milhares de palestinianos presos em Israel, muitos sem julgamento, incluindo crianças? Porque um silêncio total sobre estes outros reféns?
Assim, o discurso acabou por revelar a fragilidade da posição portuguesa: um gesto político de reconhecimento, sim, mas travado pela prudência de não melindrar Telavive nem os aliados ocidentais. Um reconhecimento sem palavras fortes, sem equilíbrio, sem a frontalidade que a situação exige.
Portugal quis afirmar-se como defensor da paz e do direito internacional, mas a forma escolhida deixa no ar uma contradição: reconhecer a Palestina, mas continuar a olhar o conflito através da lente desequilibrada do Ocidente.
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