Terroristas de conveniência

Donald Trump encontrou no assassinato de Charlie Kirk a oportunidade perfeita para reforçar a sua narrativa: a esquerda como inimigo interno a abater. Ao classificar o antifa como “organização terrorista”, não está a combater o terrorismo — está a fabricar um rótulo conveniente que lhe permite silenciar vozes críticas.
O problema é evidente: o antifa não é uma organização formal, não tem sede, líderes ou estatutos. É um espantalho útil, um saco onde se pode meter tudo e todos. Militantes em protestos, ativistas progressistas, críticos incómodos ou até humoristas como Jimmy Kimmel — qualquer um pode ser empurrado para dentro desse rótulo.
Trata-se de uma jogada política calculada. Não importa se a designação tem base legal ou eficácia prática; importa que cria medo e disciplina. Quem se atrever a contestar arrisca-se a ser associado ao “terrorismo”. É assim que se estreita o espaço democrático: não com censura declarada, mas com o uso estratégico do medo.
Trump não pretende apenas responder a um crime trágico. Pretende transformar a tragédia em arma política. Ao fazê-lo, mostra que não governa com leis, mas com narrativas. E quando a narrativa é que toda a esquerda é terrorista, o debate deixa de ser político para se tornar policial.
A democracia americana já conheceu momentos sombrios. Mas o perigo maior não está em manifestações de rua — está em quem ocupa o púlpito presidencial e decide que discordar é crime.
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