Trump, os “líderes fortes” e a deriva silenciosa das democracias
A relação de Donald Trump com líderes como Vladimir Putin, Viktor Orbán, Jair Bolsonaro e Nicolás Maduro é frequentemente apresentada como errática ou contraditória. Na realidade, ela revela um padrão bastante consistente — e profundamente revelador do estado actual das democracias ocidentais.
Trump nunca fez da defesa da democracia liberal o eixo da sua acção política. O que o orienta é outra coisa: a eficácia do poder, a lealdade pessoal e a capacidade de governar sem constrangimentos. É por isso que condena Maduro, mas demonstra admiração ou complacência em relação a outros líderes claramente autoritários.
No caso de Vladimir Putin, a admiração é quase explícita. Putin representa o poder concentrado, a autoridade sem freios institucionais, o controlo da oposição e da comunicação social. Aquilo que para uma democracia liberal é um desvio grave, para Trump surge como sinal de força e eficácia. Não se trata de ignorar o autoritarismo, mas de o valorizar.
Viktor Orbán oferece um exemplo ainda mais inquietante, porque actua no interior da União Europeia. Ao assumir o conceito de “democracia iliberal”, Orbán mostra como é possível manter eleições regulares enquanto se neutralizam tribunais, imprensa e oposição. É um modelo particularmente perigoso porque não rompe com a democracia de forma visível; esvazia-a por dentro.
Jair Bolsonaro representa uma variante menos sofisticada, mas não menos corrosiva. A sua política baseia-se no confronto permanente, na deslegitimação dos adversários e na hostilidade às instituições. A democracia é tratada como obstáculo, e não como enquadramento necessário do poder. Trump reconheceu em Bolsonaro uma afinidade mais emocional do que estratégica — um espelho político.
Nicolás Maduro, por contraste, funciona como inimigo conveniente. O seu regime é autoritário, sem dúvida, mas a sua condenação selectiva revela uma hipocrisia recorrente: o problema não é a ausência de democracia, mas a orientação ideológica. O autoritarismo é tolerável quando “do nosso lado”; inaceitável quando adversário.
O traço comum a todos estes casos é o avanço de um autoritarismo electivo: regimes que preservam o acto de votar, mas desvalorizam tudo o que lhe dá sentido — separação de poderes, Estado de direito, imprensa livre, direitos das minorias. A legitimidade política reduz-se à vitória eleitoral pontual, transformando a maioria num cheque em branco.
A relação de Trump com Israel evidencia a erosão do direito internacional como referência efectiva. O reconhecimento de Jerusalém, a legitimação dos colonatos e da anexação de territórios traduzem a normalização da excepção: as regras existem, mas só se aplicam quando não contrariam interesses estratégicos. Quando o direito internacional se torna selectivo num conflito central e amplamente visível, deixa de funcionar como limite ao poder e passa a ser apenas retórica. O precedente é claro — e profundamente desestabilizador.
A deriva das democracias ocidentais não ocorre por golpes de Estado clássicos. Ocorre de forma lenta, legal e muitas vezes popular. Trump não anuncia o fim da democracia; contribui para a sua banalização. E quando a democracia se reduz à forma sem conteúdo, o autoritarismo deixa de parecer uma ruptura. Passa a parecer uma alternativa legítima.

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