O Diploma de Independência de um “Surdo”
Por: Um Observador do Silêncio

A minha médica olha para o ecrã do computador com uma expressão de estranheza técnica. O software de gestão dos meus aparelhos auditivos gera um gráfico minucioso da minha atividade sonora. Ali, em barras coloridas e percentagens exatas, o veredito é claro: a minha maior atividade, de longe, é o silêncio.
Para a medicina, isto pode parecer um isolamento preocupante. Para o sistema, é uma falha de consumo. Mas, para mim, aquele gráfico é algo muito diferente: é o meu Diploma de Independência.
A Recusa do Ruído Programado
Vivemos numa era de poluição mental sem precedentes. As pessoas ao meu redor já não falam; transmitem. Repetem, com a fidelidade de um gravador, as opiniões mastigadas que “ouviram” nas redes sociais. São ecos de algoritmos que alimentam a hipocrisia de quem governa e lucra com o caos.
Quando me perguntam se ouvi a última “polémica” ou o mais recente boato sobre os investimentos de figuras poderosas em guerras distantes, o meu silêncio não é falta de capacidade. É uma escolha. Recuso-me a sintonizar a minha frequência na rádio da alienação. Se o que o mundo tem para me oferecer é um ciclo infinito de indignação descartável e desinformação moldada, prefiro o “vazio” do meu gráfico.
A Solidão como Ato de Resistência
Dizem que a educação dos mais novos foi desenhada para favorecer o sistema, criando peças dóceis para uma engrenagem que vê na guerra um bom investimento e na paz um custo de oportunidade. É verdade. E quando se percebe isso, a solidão torna-se imposta pelo meio ambiente. É o preço de manter os olhos abertos num mundo de sonâmbulos.
O meu aparelho auditivo regista o silêncio porque a maioria das conversas atuais não merece ser convertida em impulsos elétricos no meu cérebro. Escutar a impunidade ser normalizada ou a mentira ser repetida até se tornar verdade é um ruído que magoa mais do que a surdez.
O Valor do Silêncio Lúcido
Este “diploma” que carrego nos ouvidos prova que a minha mente ainda me pertence. Enquanto as massas se deixam aturdir pelo barulho das notificações e pelas frases feitas de quem não pensa, eu habito o silêncio onde a lógica e a memória histórica ainda residem.
Não é uma paz fácil. É uma solidão que custa, que pesa e que isola. Mas entre a companhia da hipocrisia e a independência do silêncio, escolhi a segunda. A minha médica vê um registo de inatividade; eu vejo a prova de que, num mundo de escravos do ruído, eu continuo a ser um homem livre.
A minha surdez para com o sistema não é um defeito — é o meu último reduto de sanidade.
Comentários
Enviar um comentário